Depois das férias…

29 jul

Minha semana já começa no meio, pois terça-feira eu não tenho aula. Então, já bate uma vontade de que chegue logo sexta-feira pra vir o final de semana.

Após 13 anos de magistério o pique, a mente e a vontade já razoavelmente se esgotaram.

Quando comecei nesta profissão, que tive a oportunidade de escolher e meu pai financiar, não queria ser mais uma professora da rede, queria fazer o diferencial, queria transformar, no entanto me deparei com uma estrutura quase que impenetrável. Muitos participantes da estrutura educativa não querem se mobilizar, outros poucos que lutam são massacrados por aqueles que inertes que eu já citei.

Desde que o mundo é mundo a lei que impera é a do mais forte. Para mim fica perfeitamente claro que a Educação serve como instrumento para manutenção dos interesses da classe dominante.Eu já li isso em algum livro…

É interessante perceber que quando algo não faz parte do seu universo você o vê tão de longe pelos olhos da imaginação, mas vivenciar uma situação que você achava imaginária dá uma sensação de pertencimento, de apropriação. Agora que constatei sinto como se ainda fosse algo inédito pro resto do mundo.

Já não tenho mais a ilusão de que vou transformar o mundo, que vou salvar os alunos, que vou ensinar até todos aprenderem. Aliás, demorou pouquíssimo pra eu me desiludir: dois anos após ter entrado na rede estadual de ensino.

Apesar do banho de água fria sei que faço a diferença na vida de um e de outro. Sou mais humilde agora: se conseguir modificar pelo menos a bagunça no meu guarda-roupa já está de bom tamanho.

Nestas férias até fiquei de organizar as roupas, separar um punhado pra doar, mas não fiz. Nestas férias prometi que iria ler um livro e li dois que vou recomendar aqui.

Animal Farm de  George Orwell.Senti uma necessidade de relê-lo. A primeira vez foi na faculdade e eu fiquei apaixonada pela história, pelo Boxer. Este livro é uma fábula metafórica da Revolução Russa. Orwell conseguiu com maestria fazer uma reflexão sobre os acontecimentos históricos de sua época e como o poder e os indivíduos se relacionam.

Mais uma vez o cavalo Boxer, fiel, dedicado e fisicamente muito forte, cujo lema era “I will work harder” e “Napoleon is always right” me fez chorar.

Além do livro há também o filme. Fica como dica para poder trabalhar com os alunos: resenha crítica, dissertação.

Outro livro que li, porque me chegou às mãos e não porque estivesse mesmo interessada em lê-lo, foi o Doce veneno do escorpião de Bruna Surfistinha. Acho que todos os pontos que havia ganho com a primeira indicação foram pro saco depois dessa, né? Certamente enquanto texto de valor literário não há nem comparação entre George Orwel e Raquel, verdadeiro nome de Bruna, porém como fonte de pesquisa sobre o universo da prostituição ele é interessantíssimo.  Tanto que o achei bem didático, aprendi umas posições novas e como apimentar a relação.

Agora como é que nós podemos utilizar o livro da Bruna Surfistinha nas aulas? Para podermos tratar do tema transversal sexualidade, falarmos sobre preconceito, blog e de adoção, por exemplo.

Há dois anos atrás fiz uma mostra dentro da feira cultural da escola sobre a história da literatura erótica. Foi um sucesso! Os alunos da oitava série de suplência se envolveram de uma tal forma que o que a princípio poderia ser considerado uma pornografia foi na verdade muito enriquecedor,didático e divertido para todos nós. Só de me lembrar da cara de vergonha e curiosidade das pessoas ao visitarem a exposição já me faz rir novamente…e os bonequinhos de biscuit feitos pelo Eduardo simulando as posições sexuais, perfeito!

Não pensem vocês que isso saiu da mente depravada da professora aqui. A idéia surgiu depois de ler esse testo da revista Surper Interessante: A (indiscreta) história da pornografia e o embasamento teórico eu tirei do livro História da Literatura Erótica – Alexandrian.

Hoje foi minha despedida na 6ªG, pois esta é a última semana que fico como professora efetiva do estado de língua inglesa, a partir de 09/08 estarei como professora efetiva da prefeitura de língua inglesa. Só o cargo não mudou, pois muda tudo: salário, plano de carreira, cidade, escola, alunos e parece que lá eu serei módulo, isto é, professora eventual efetiva.

Dá um aperto no coração, mas o ser humano tem que evoluir. O que a gente não usa atrofia e eu sou uma pessoa que preciso de desafios intelectuais.

Na 7ªA minha conversa girou em torno da mudança de comportamento deles e como isso tem afetado negativamente o rendimento escolar. A questão aqui é a sexualidade, a efervescência dos hormônios que como disse a eles e também as seus responsáveis, pois sou coordenadora da sala, apesar de ser algo natural para a idade em que estão não pode ser algo que desvie a atenção e façam com que regridam. Eu os conheço desde a 5ª eu sabia exatamente do que eu estava falando.Fiz um discurso de  40 minutos que eles ouviram atentamente e que certamente eles refletirão depois.

Depois das férias é assim e no início do ano letivo também. Para criar vínculos, empatia, moral, respeito. A gente tem que chegar junto.

Nos terceiros do noturno falei do livro da Bruna Surfistinha e da minha experiência lendo textos tão distintos. O pior é que só havia 5 alunos e é um saco dar aula pra meia dúzia de gatos pingados. A hora não passa. Você prepara algo e tem que mudar no meio do caminho, mas eu sou muito ligeira, anos de prática, sempre tenho uma carta na manga. Trabalhei elaboração de resumo e o tema foi a literatura modernista portuguesa.

Tive que ficar das nove às onze sem nada pra fazer, pois os alunos das outras salas não vieram e a gente tem que cumprir horário. Normal.

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