Vaidades: autonomia para lidar com os conflitos

17 set

O projeto sobre sexualidade terminou hoje com a apresentação dos grupos numa feira para divulgação dos produtos criados por eles.

Antes de falar sobre a avaliação pedagógica dos trabalhos, que é muito dificil, pois lidamos nesse caso não com quantidade mas com qualidade daquilo que é o produto final. Vou fazer um a parte sobre o papel do professor como mediador de conflitos.

Muitas vezes por inexperiência e/ou  ingenuidade agimos por impulso e acabamos sendo vítimas de nossa própria armadilha, que sempre é a nossa língua.

Saber o que falar, como falar e agir em momentos de conflitos também é um papel do professor dentro da sala de aula. Afinal de contas, trabalhar com os relacionamentos interpessoais é uma questão de cidadania.

Lidar como mediadora de conflito entre alunos é muito desgastante, pois o professor tem que ter a habilidade de ajudar igualmente tanto um lado como o outro para não ser acusado depois de ser tendencioso. Não é nada fácil, pois a prática educacional, como dizia Paulo Freire não é uma atividade neutra.

“O professor me deu zero”. O aluno culpa o professor pelo mau desempenho que ele teve.

“Eu tirei 9.” O aluno atribui a ele o sucesso nas tarefas.

Avaliação é um tema muito discutido e várias pesquisadores têm se descobrado em querer transformar em dados aquilo que não pode ser medido numericamente.

No entanto o sistema educacional paulista trabalha com uma escala que vai de 0 a 10 sendo de 5 a mais o valor considerado satisfatório do aproveitamento do aluno. Quer dizer, os pesquisadores pregam uma coisa, a LDB fala outro e na prática o que conta realmente é o rendimento quantitativo que vemos em avaliações como o SAEB, o SARESP e a Prova Brasil.

Eu enquanto, aluna em tempos de ensino fundamental e médio, nunca tive problemas com notas. Na faculdade, na pós, nos cursos de extenção que tenho feito sigo sem problemas. Posso me considerar uma aluna boa, poderia ter sido melhor e posso melhorar se eu tiver a capacidade pra me concentrar eme empenhar nas atividades.

Eu ainda tenho consciência do que às vezes faz com que minha nota seja aquém do que eu gostaria, mas para admitir as minhas falhas é necessário que eu faça uma reflexão sobre as minhas ações.  Já dizia o Newton na Lei III de física e que nós espíritas acatamos:

Actioni contrariam semper et aequalem esse reactionem: sine corporum duorum actiones in se mutuo semper esse aequales et in partes contrarias dirigi.

(A toda ação há sempre uma reação oposta e de igual intensidade, ou, as ações mútuas de dois corpos um sobre o outro são sempre iguais e dirigidas a partes opostas.)

Agir com ou sem responsabilidade,  ética ou caráter em sociedade requer autonomia para enfrentar situações de conflito que surgem e com as quais temos que lidar em nossso cotidiano. Essa autonomia vem de uma profunda reflexão de nossas ações. Nem sempre minha autoavaliação é positiva, e eu até posso saber disso, mas dificilmente externo para as pessoas que estão ao meu redor. O medo de se tornar fraco perante os outros é uma vaidade que emperra muitas vezes o progresso.

Há um programa chamado “O Caráter Conta” que começou a ser desenvolvido nos EUA e aqui teve início entre as escolas estaduais e municipais de Joinvile SC e tem se espalhado com sucesso pelo resto do Brasil.

Hoje aconteceu isso com duas alunas discidentes de um grupo que não conseguiram perceber que as alternativas que utilizaram para resolver um conflito de relacionamento em grupo implicou na qualidade do trabalho que apresentaram. Terceira lei de Newton

No calor do momento as pessoas utilizam palavras impensadas e como eu não tenho 13 anos de idade eu tenho que relevar certas frases que eu ouço:

Porque eu moro na favela e se me derem um tiro os irmãos vão atrás.” Um aluno de 13 anos se achando do crime…rs… pra ser irmão ele tem que comer muito feijão e arroz.

Quem é você pra julgar que eu não tenho caráter.” Essa ai eu nem respondi, porque eu sou uma pobre mortal comedora de arroz que feijão eu não gosto, e que estou aprendendo e evoluindo a cada dia, mas tenho uma opinião formada pela minha vivência e pelos meus estudos e sei distinguir muito bem situações em que a pessoa apresenta bom caráter e situações em que a pessoa não apresenta, além do mais eu tenho caráter¹.

Nesse segundo caso citado o que ocorreu e eu vou postar a carta que enviei a mãe da aluna já foi algo que previ enquanto eles estavam realizando o projeto sobre sexualidade. Eu falei na sala sobre responsabilidade, sobre como se trabalhar em grupo, delegar tarefas e também da franqueza de dizer que não quer participar, que não vai fazer, para que os outros participantes saibam com quem podem contar e não ficarem na mão. Segue a carta que explicará a situação, ficando a cargo de vocês os comentários.

Ao responsável por……

às vesperas de ser entregue o trabalho do projeto sobre sexualidade a aluna e mais uma integrante do grupo, …………., resolveram sair para fazer o trabalho em dupla devido a problemas de relacionamento interno.

Porém com medo de represária das integrantes não disseram que iriam fazer o trabalho a parte e até o último momento o grupo contava com ambas para confeccionarem a caixa para o jogo de tabuleiro.

O conflito se deu a partir daí, pois…………….. e ……………….. conseguiram realizar o trabalho só faltando entregrar o anúncio publicitário e o grupo do qual elas faziam parte ficou sem a caixa para o trabalho.

Em relação ao procedimento didático ambos estão descumprindo o que foi acordado durante a execução do projeto, pois o mesmo começou a mais de um mês atrás.

Quanto a questão de relacionamento interpessoal, por não terem autonomia suficiente para lidar com os conflitos acabam por ampliá-los.

Somente o respeito, a dignidade e uma conversa franca entre os participantes do grupo são capazes de tornar sucesso um projeto.

Responsabilidade também é aprendida pelo convívio, que não é fácil, tendo tantas pessoas com personalidades diferentes em nosso meio.

O trabalho delas foi avaliado em um contexto que tanto leva em conta os procedimentos didáticos, quanto os de organização e divulgação que correu no dia de hoje.

Em tudo isso cabe se pensar mais profundamente sobre as questões ocorridas. somente a reflexão pode levar ao aprendizado e o que está em jogo nesta situação não é só o “jogo” que eles criaram , mas também, como eles  irão trabalhar a responsabilidade e a utonomia deles como cidadão.

Profª Shirlei Alexandra da Cunha

Agora aguenta lidar com esse povo cheio de vaidades e orgulho!

¹CARÁTER      s.m. Conjunto de qualidades (boas ou más) que distinguem (uma pessoa, um povo); traço distintivo: o caráter do povo brasileiro.
Gênio, índole, humor, temperamento.
Formação moral, honestidade: homem de caráter.
Cunho, aparência, ar, feição: obra com caráter de autenticidade, missão em caráter oficial, doença de caráter grave.
Psicologia   Conjunto coerente de respostas dadas por um indivíduo a uma série de  testes e que permite, por comparação estatística, situá-lo numa  categoria determinada.



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