O corpo preto na dança do ventre

O corpo preto na dança do ventre (texto com direitos autorais)

Por Shirlei Ale

Antes de começar esta reflexão, porque o que me proponho neste texto é refletir sobre a presença de corpos pretos na dança do ventre, quero que você me acompanhe nessa caminhada para pensarmos juntos novas possibilidades de vivenciar uma dança realmente democrática.

Para isso precisamos ter nítido alguns conceitos e descolarmos nossos corpos um pouco das academias e estúdios de dança, sentarmo-nos para analisar, refletir e repensar nossa dança e o papel dos nossos corpos para a dança que a gente escolheu falar. Se não for assim perder-se o potencial criativo e subjetivo e passamos a mera reprodução de passos organizados mais ou menos de forma técnica. Nesse sentido, saber de onde partirmos, para entender onde estamos é um processo que deve ser feito não só com a dança, mas para projetarmos nosso futuro.

O que vimos e experienciamos no mundo será assimilado por nossos filtros pessoais e manifesto na subjetividade expressa do nosso corpo na dança, citando Walter Benjamim, a informação passa e a experiência me perpassa. Por tanto, quando eu coloco meu corpo como veículo de expressão pública da dança do ventre eu tenho uma atitude política expressa nas minhas escolhas de música e de movimentos corporais dentro de um espaço.

Pronto, lá vai a primeira pergunta: o que eu quero dizer para os outros através dessa língua que eu escolhi?

A língua aqui é a dança do ventre. Vou construir esse texto fazendo essa analogia e em cima da teoria comunicativa Baktiniana, porque eu falo a partir do meu lugar de conhecimento que é o estudo da língua como professora de língua portuguesa e inglesa.

Além da língua que eu escolho, que é a dança do ventre, esse corpo carrega uma historicidade, seus movimentos foram construídos durante séculos e séculos de convivência em espaços que os moldaram e em representações simbólicas e gestuais que são códigos do grupo, da comunidade, de sua ancestralidade. Por tanto, para falar de dança do ventre no Brasil é preciso falar do corpo brasileiro que dança. Da corporeidade brasileira miscigenada sob influências indígenas, africanas e europeias. Precisamos tirar proveito do que fizeram da gente para nos agigantarmos e não para nos segregarmos como muita gente pensa que é a ideia do movimento negro no Brasil.

Com os protestos e manifestações que eclodiram mundialmente a partir do assassinato de George Floyd, que foi asfixiado por um policial branco em plena luz do dia e na frente de uma câmera, a hashtag #BlackLivesMatter foi levantada e telas pretas apareceram nas redes sociais contra o racismo e em prol de ações antirracistas. Pausa para mais uma provocação: você que está lendo e aderiu as manifestações em suas redes sociais, também colocou tela preta quando um carro com uma família preta foi alvejado por policiais no Rio de Janeiro matando um pai de família inocente? Ou quando a menina Ágatha foi baleada nas costas dentro do veículo que a levava de volta para casa? Ou quando Marcos Vinicíus foi assassinado a caminho da escola em uma operação policial no complexo da Maré? Ou quando o pequeno Miguel caiu do nono andar de um edifício de luxo construído na zona tombada da cidade de Recife enquanto sua mãe passeava com os cães da patroa e deixara o filho aos cuidados da empregadora?

Num primeiro momento você vai me perguntar, Shirlei, nada a ver isso aí com a dança do ventre e com a presença de corpos pretos nela! Aí é que está a questão. Cada um de nós analisa uma situação pelo conhecimento de mundo que tem e quanto mais a gente amplia esse conhecimento maiores ficam as conexões que a gente consegue realizar para compreender um fato. Por isso a necessidade que senti de trazer um olhar multidisciplinar sobre o assunto.

Nós somos seres biopsicosocioespirituais, não é possível escolher só um aspecto sem se valer de outros para entender os fenômenos sociais e para conduzir essas reflexões que agora faço sobre os corpos pretos na dança do ventre.

Outra cutucada: qual é o lugar que os corpos pretos ocupam na sociedade brasileira? Segura aí sua resposta que mais pra frente vamos usá-la.

O lugar dos corpos pretos na sociedade brasileira e o lugar dos corpos brancos foi construído historicamente. O que é isso? A ocupação dos corpos pretos no espaço social tem relação com o processo histórico de escravização de seus corpos, da desumanização deles, da objetificação feita, da animalização de seus traços e comportamentos. Isso é um traço e um entendimento que nos chegou pelas mãos e pelas histórias escritas pelo escravizador. O corpo preto em sua sociedade original, em África, tem totalmente outra conotação, pois a relação deles com o corpo é outra, é um outro contexto social.

Então, falar no espaço ocupado por corpos pretos na dança do ventre no Brasil passa também por entender o espaço que esse corpo preto ocupa nesta sociedade e dos lugares que esses corpos pretos não ocupam.

Estou aqui lendo a sua mente e você pensou assim: se o preto não ocupa os espaços é porque ele não quer, ninguém está impedindo o preto de fazer a dançar que ele quiser. No Brasil nem teve apartheid que nem nos EUA.

Agora eu venho com minhas, nossas reflexões. Será mesmo que no Brasil não teve apartheid? Pega lá a resposta anterior que eu pedi pra você segurar. Se você foi capaz de identificar locais em que a maioria dos corpos pretos se encontram e locais em que a maioria dos corpos brancos se encontram, se isso não é um apartheid é o quê, então? E pra apimentar isso: os locais em que a maioria dos corpos pretos estão são de prestígio ou de desprestígio social?

Na real, nunca houve apartheid institucionalizado no Brasil, mas as formas de controle físico e ideológico da população preta estabeleceram o apartamento social deste grupo. Precisamos lembrar que o Brasil foi o país que mais escravizou corpos pretos no mundo. São 5 milhões de africanos vindo para essas terras o que corresponde a duas vezes mais que o Caribe britânico que está em segundo. O Brasil foi o último país a assinar a libertação dos escravizados (1550 -1888), três séculos de um regime cruel e que para ser mantido os corpos pretos tiveram que ser disciplinarizados. Manter tanta gente assim sob controle fazendo coisas contra a vontade delas só por meio da coerção:  violência física e ideológica.

A física continua existindo neste monte de corpos pretos que são assassinados até hoje e a ideológica é aquela que aceita que corpos pretos sejam violentados, pois eles valem menos do que outros corpos. Isso é tão forte culturalmente por aqui que somos capazes de chorar porque um pretinho morreu na Etiópia de fome, mas quando um pretinho morre inocente no Brasil a gente nem se sente tocado, “tá lá mais um corpo estendido no chão”, Racionais MC’s canta. Esse nosso olhar para os corpos pretos brasileiros foi construído a partir de teorias científicas de classificação de bichos e plantas que serviu de alicerce para o racialismo humano e de como ele foi usado como justificativa para o domínio de corpos de um determinado grupo classificado hierarquicamente como inferior e com o aval das instituições religiosas.  Apesar de ser praticado e vivenciado o conceito de racismo só surge por volta de 1920.

Segundo Kabengele Munanga, “o racismo é uma crença na existência das raças naturalmente hierarquizadas pela relação intrínseca entre o físico e o moral, o físico e o intelecto, o físico e o cultural. O racista cria a raça no sentido sociológico, ou seja, a raça no imaginário do racista não é exclusivamente um grupo definido pelos traços físicos. A raça na cabeça dele é um grupo social com traços culturais, linguísticos, religiosos, etc. que ele considera naturalmente inferiores ao grupo ao qual ele pertence.”

Já li até seus pensamentos de novo: que enrolação, escreveu tudo isso pra dizer o que eu já sei, porque não vai direto ao ponto! Se eu estou escrevendo um texto de reflexão, eu não espero que você concorde comigo. O que quero é exatamente que você não concorde porque é desse ponto que você que está lendo constrói seu percurso reflexivo. Se não vamos agindo no automático reproduzindo fala e comportamentos que já não cabem mais ao nosso tempo.

Estou até me sentindo meio machadiana com essas pausas de conversa com o leitor. Grande Machado, tinha que ser preto!

Agora outra perguntinha: que força é essa que existe acima de leis institucionalizadas que levam ao apartheid de corpos pretos em todas as suas dimensões na sociedade brasileira?

Hein?

Eu tenho uma hipótese, mas não vou dar a resposta senão você vai querer colar de mim. Vai caçar suas próprias respostas que a partir daqui vou falar de dança e vou deixar você um pouco mais confortável porque vou tratar de um assunto que pra você que está lendo e é branco  te deixará numa zona de conforto… por enquanto…

Começando com a base. Precisamos saber de onde partimos, para saber o que temos e construirmos o percurso para onde queremos chegar. Pergunta: o que é dança?

O conceito vai depender do sujeito que dá a resposta. Se formos olhar no dicionário a palavra dança, substantivo feminino, tem inúmeros significados.

Eu sou professora de língua portuguesa e língua inglesa da rede pública de ensino de São Paulo e minha resposta se aproxima do conceito de dança como linguagem, como meio de comunicação. O modo como danço é a expressão usada pelo meu corpo para transmitir uma mensagem. No aspecto físico, dança são movimentos ritmados do corpo normalmente ao som de música. Juntando esses dois conceitos eu vou dizer que a dança são os movimentos coordenados do corpo trazendo uma simbologia e uma subjetividade que servem para me comunicar com o mundo.

Por tanto, a dança é um aspecto de nossa natureza e é também um meio de comunicação. Ela nasce na gente, no chão das nossas salas, nos quintais de nossas casas, nos nossos terreiros, nos nossos templos. Ela é um código de comunicação de um grupo que quando eu conheço eu consigo estabelecer um diálogo, mesmo não me identificando com os corpos que dançam.

Indo por esse caminho, da dança como meio de comunicação, eu entendo as diferentes manifestações corporais rítmicas como as diferentes línguas que temos e usamos para nos comunicar.

Enquanto a dança é da natureza do ser humano e feita nas nossas casas está tudo bem. O conflito vai começar a se estabelecer quando a dança adentra o espaço público. O espaço público é uma zona de tensionamentos e de disputas porque toda a comunidade mesmo realizando uma determinada dança, cada família tem uma ou outra peculiaridade e na hora de reproduzir essa dança fora dessa comunidade alguns parâmetros devem ser estabelecidos. Isso trará identidade a essa dança, pois em qualquer lugar que eu a veja e eu reconheço e eu sou capaz de manter um diálogo com ela. O corpo que movimenta um determinada dança traz a identidade do grupo que a criou e do poder político que um grupo teve sob outro para ter seus passos reconhecidos como a essência daquele tipo de manifestação.

Mas as danças não são engessadas. Elas são produtos da criação humana e vão sendo modificadas conforme as necessidades humanas. A dança é viva. Assim como as línguas elas acompanham os processos históricos a que os grupos estão sujeitos e ficam sendo conhecidas por outros grupos dançantes pela expansão territorial, pelo intercâmbio cultural, pelo globalização. E aí que coisa começa a complicar porque o domínio territorial e de seu povo passa por um processo de incorporação desse povo à cultura do dominador.

Existe um ditado que diz que é conversando que a gente se entende, então, para demonstrar o poder do dominador a primeira violência é obrigar o dominado a aprender sua língua e proibir  o diálogo e usos da língua nativa entre os membros do grupo. A dança é uma linguagem, é um meio de comunicação em que o corpo serve de suporte, portanto a dança do dominado também é proibida, qualquer forma de expressão que não seja a do dominador é reprovada. Será que daqui você já conseguiu estabelecer alguma relação dos corpos pretos na dança do ventre? Se não vou dar mais algumas pistas.

A dança do ventre, como a maioria das danças, em sua origem tem ligação com o sagrado, com o divino, com o religioso.  Mesmo com o parco material que se tem sobre as origens dessa dança, há fortes indícios de que ela tenha surgido na África, mais especificamente no Egito. Por meio de inscrições deixadas sobre a vida cotidiana no Antigo Egito, surgem alguns relatos de danças para fertilidade, danças ritualísticas feitas muito intimamente que indicam algumas movimentações rítmicas corporais de quadril que quando vieram ao espaço público foram sendo modificas. Do contato com outros grupo incorporou outros movimentos e a dança do ventre sofre muita influência do dominação árabe no Egito. No entanto, a movimentação dos corpos que trouxe esse perfil da dança oriental com a cara artística que temos hoje nos chega por conta das invasões napoleônicas ao Egito e que levaram essa dança para o ocidente. Claro que, precisamos lembrar que a dança no Egito principalmente nos últimos 50 anos tem o toque do Grupo Reda. Esse grupo provocou grande impacto no Egito em seus aspectos artístico, social e cultural, com suas elaborações coreográficas inovadoras e criativas que se propuseram a levar ao palco o folclore egípcio de forma adaptada aos espetáculos.

É na França que esse caráter erótico é marcado. Inclusive pelo troca do nome árabe de Racks el Sharqi, dança do leste, ou oriental para danse du ventre com o foco no quadril e na região pélvica feminina.

Da França para o mundo, a leitura da dança do leste feita pelo viés da cultura ocidental românica cristã e praticada com corpos ocidentais, ou vendidas para o ocidente pelo cinema egípcio. Essas são nossas referências a partir da publicização desta dança, nos cabarés e arte cinematográfica.

Ela chegará ao Brasil só a partir da imigração árabe para cá. Até então, nossas manifestações dançantes são marcadas principalmente por reproduções de danças portuguesas, de salão, de palácios, as danças palacianas. Já que os escravizados eram proibidos de usar a linguagem materna (as danças maternas de origem africana) reproduziam as danças palacianas, mas executadas em corpos não palacianos. Esse molde não encaixa e o que nós temos são essas várias manifestações populares que misturam as influências africanas nas danças palacianas.

Apesar de estarem no Brasil fugidos de uma situação de guerra, de calamidade e morte em seus países, os imigrantes árabes no Brasil puderam estabelecer comunidades, puderam professar sua religiosidade, puderam manter sua língua, puderam continuar manifestando sua dança. Lembrando, enquanto a dança ocorre dentro do espaço privado está tudo bem e só passa a ser algo conflituoso quando adentrar o espaço público. Esse espaço público não é apenas um espaço político, como Hanna Arendt diz, ele é mais amplo, uma vez que o mesmo é a representação dos que atuam com isonomia, em um espaço que é deles, produzido pelo consentimento de todos, para que todos tenham acesso à vida.

Como nossa sociedade racializada trata inclusive o direito à vida de forma hierarquizada alguns corpos dentro desse espaço público serão bem vindos e outros não.

Conseguiu juntar as pontas agora?

Vivemos num país miscigenado com influências culturais de três etnias: indígenas, africanos e europeus. Isso é o povo brasileiro propositalmente miscigenado. A nossa riqueza está em ser que somos, o que precisa ser combatido é que essa miscigenação forçosa se dá a partir de uma mentalidade colonizadora racializada que discriminou, inferiorizou, rebaixou e demonizou as manifestações dos corpos pretos e também dos indígenas. Como meio de resistência esses grupos continuaram com suas práticas de forma privada. O que bato na tecla é que o racismo fez com que o valor e a relevância dados às contribuições europeias e brancas sejam hipervalorizadas no espaço público e nos contando uma história única de povo.

O mito de democracia racial retirado da obra de Gilberto Freire, Casa Grande e Senzala, trata da convivência cordial dos brasileiros que foi sendo estabelecida pelos grupos étnicos no espaço público pra debelar os conflitos, mas desde que ao final o preto aceite sua condição dentro da escala hierárquica que o branco construiu e administra.

Quando o corpo preto chega neste espaço público para participar e integrar-se a essas danças ele tem que moldar seu corpo para ser aceito, para pertencer, pois essa é a condição que nosso rearranjo social construiu para evitarmos confrontos. Para se evitar mais violência ainda que é a disputa física, há a violência simbólica contra os corpos pretos. Essa coerção subjetiva construída das relações escravagistas da estrutura racista brasileira. Ou ele passa a se identificar com aquele espaço, mutilando-se, modelando seus traços, seu cabelo, sua historicidade, ou ele não participa, ou então ele não aceita essa violência e o conflito começa a ser estabelecido naquele espaço.

Na dança oriental esse molde estético corporal é estabelecido por quem ganhou a narrativa política do que é a dança no espaço público e como os iguais se atraem pro preto ser da mesma laia ele muitas vezes vai se violentar, vai violentar seu corpo, sua estética, para caber no molde criado de dança oriental. Senhor Gilberto Freyre, eu entendo desta maneira esse processo “democrático racial” brasileiro quando aplicado à dança do oriental. Ao dizer que seu cabelo não está legal que você deveria fazer uma escova para o dia da apresentação, ou deveria emagrecer até lá esse é um julgamento estético que parte do entendimento daquele grupo dominador do que é dança oriental pública. Lembra lá atrás quando eu disse que quando a dança sai do quintal e vai pra rua tem alguém que vai definir o que deve ser visto pelos outros?

Você que é branco, tenho uma pergunta, só será um bailarino completo de dança senegalesa se você fizer permanente no cabelo para encrespar os fios e ficar parecido com as bailarinas senegalesas?

A dança oriental realizada a partir de corpos brasileiros irá carregar o sotaque brasileiro, as marcas rítmicas culturais construídas historicamente por esse corpo. As argentinas têm o corpo argentino de dança do ventre, as russas têm o corpo russo de dança do ventre e nós brasileiras temos o corpo brasileiro da dança do ventre. Todas com suas peculiaridades e influências culturais, mas que em sua estrutura falam a mesma língua, pois existe uma essência, um fio condutor de identidade da dança que onde e por quem quer que seja executada, mesmo que com um passo aqui outro acolá desconhecido, você consegue identificar e estabelecer um diálogo.

Foi uma felicidade enorme para o mundo a existência do movimento modernista e de vanguarda nas artes e que chegou ao Brasil mais fortemente nos anos de 1920. Eles deram alforria às Artes e liberdade ao processo criativo. Mesmo apesar de todo o conflito estabelecido na época, esses artistas possibilitaram a criação de um olhar para as manifestação artísticas nacionais a partir da contribuição étnica miscigenada democrática dentro do espaço público, algo sempre estigmatizado e idealizado na cultura brasileira. Mesmo assim cabe ressaltar que sem a participação efetiva desses atores, pretos e indígenas, mas ampliando o olhar para as manifestações culturais dessa população que a elite intelectual do país não tinha, ou se se tinha era algo muito insípido.

Penso que estamos num processo de construção dessa democracia racial tão desejada, algo que o movimento de vanguarda modernista trouxe como possibilidade pela visão do dominador, estamos desenvolvendo a brasilidade estética a partir da contribuição dos povos constituintes desta nação. No entanto, ainda em um processo de resgate como na música do Racionais MC’s “um homem na estrada recomeça a sua vida, sua finalidade: a sua liberdade, que foi perdida, subtraída”. A busca é pela identidade preta que lhe foi retirada, não por conta de uma infração penal, mas simplesmente porque o seu o corpo está no mundo em que as relações sociais se estabelecem de forma racializada.

O movimento negro aparece justamente como uma forma de resistência a essa violência contra a identidade preta. Termos o movimento Bellyblack e grupos como o Resistência Bellyblack na dança oriental é um meio de empoderamento criado a partir de uma relação de pertencimento. É o resgate dos corpos pretos e da corporeidade preta dentro da dança, dentro da dança oriental no espaço público.

Quando o corpo brasileiro está no palco ele representa toda a memória do povo brasileiro. Essa memória dançante foi construída a partir da resistência da maioria dos nossos ancestrais africanos que continuaram secretamente corporificando manifestações culturais ancestrais de seus países de origem.  Ter a presença desse corpo preto na dança oriental é respeitar a ancestralidade que constitui esse corpo que se movimenta nesta dança.

Fusionar elementos da dança afro preta na dança afro “branca”, coloco esse branca entre aspas porque a pela das egípcias foi também embranquecida,  só pode trazer elementos para enriquecê-la. Para além, é a possibilidade de criarmos uma dança oriental brasiliana, rechaçando aqui o sufixo -eiro de desqualificação da população nascida nessas terras.

Ambas as manifestações públicas de dança vêm da mesma origem: do sagrado, do religioso. Começar essa aproximação dentro deste viés de convergência é exatamente desconstruir a ideia de racialização, de hierarquização. É possível que um diálogo seja estabelecido por meio de movimentos corporais que se assemelham, mas que contém significados construídos em culturas diferentes.

Os conservadores já estão tristes: mas aí não será mais dança oriental? Vão acabar com a dança oriental!

A dança só vai morrer quando não existir alguém que a reproduza em sua essência. Enquanto ela existir na sociedade e sob a influência desta sociedade a dança vai se modificar como o mundo se modifica. A dança é orgânica. Ela é viva.

Por tanto, trazer o corpo preto para a dança do ventre é trazer todas as representações simbólicas das danças de corpos pretos.  Só faz sentido um empoderamento quando há reconhecimento e valorização identitária do próprio grupo pelo próprio grupo, Paulo Freire explica isso muito bem. É o grupo que vai decidir o que importa ser colocado no espaço público para a afirmação deste grupo neste espaço.

Estamos vendo cada vez mais corpos pretos ocupando os espaços públicos e se advogamos pelo respeito à diversidade é preciso respeitar a historicidade e a ancestralidade que esse corpo carrega. Vai causar estranhamento em certos espaços por conta do nosso “apartheid não institucionalizado”. Esse estranhamento só pode ser fruto do racismo e de associação deste corpo com ambientes de desprestígio social porque a maioria da nossa população é preta. Então, num país em que 55% da população se declara preta e parda não questionar essa lógica de não encontrar corpos pretos em todos os espaços é perpetuar o racismo estrutural. É autorizar a existência de um apartheid não institucionalizado no país.

Para finalizar essa texto reflexivo mais uma pergunta: Você é contra o racismo?

Se você respondeu sim, mas acha que falar sobre o racismo na dança oriental é mimimi, que tudo agora é racismo,  se acha que o movimento Bellyblack é uma forma de segregação, então vamos criar o Bellywhite, que na verdade não precisa ser criado porque ele já existe e é tão naturalizado para nós que nem precisa de rótulo. Se você acha dança afro preta é macumba e dança afro branca é sagrado feminino, então, tenho uma péssima notícia para você: você não é contra o racismo, você é a favor da perpetuação do racismo estrutural na dança oriental. “Numa sociedade racista não basta não ser racista. É necessário ser antirracista”, a filósofa e militante Angela Davis é assertiva ao dizer isso.

Agora se você respondeu sim a alguma das perguntas acima eu tenho uma tarefa, volte e releia todo esse texto, busque informações que justifiquem o seu contra argumento, dê um Google porque a única forma de nos libertarmos das amarras ideológicas é por meio do conhecimento, é por meio da educação.

Referências bibliográficas

ALMEIDA, Suzana Oliveira. A importância do espaço público na perspectiva de Hannah Arendt. Cadernos do PET Filosofia, Vol. 9, n. 17, 2018.

BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. Trad. Maria Ermantina Galvão; rev. trad. Marina Appenzeller. 3.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Editora Paz e Terra. Rio de Janeiro, 1986.

FREYRE, Gilberto. Casa grande & senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. Edição crítica de Guillermo Giucci, Enrique Larreta, Edson Fonseca. Paris: Allca XX, 2002. (Coleção Archivos)

GIESBRECHT, Érica. Dança do ventre em São Paulo: cena, mercado e sustentabilidade em uma prática de dança local. Rev. Inst. Estud. Bras., São Paulo, n. 73, p. 142-168, Aug.  2019.   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0020-38742019000200142&lng=en&nrm=iso&gt;. access on  28  June  2020.

MUNANGA, Kabengele. Uma abordagem conceitual das noções de raça, racismo, identidade e etnia. In: Programa de educação sobre o negro na sociedade brasileira[ S.l: s.n.], 2004.

SCHIFINO, Rejane Bonomi. Dança: palavra ou conceito? A perspectiva adotada pelas academias particulares de Goiânia (1973-1999). Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH. São Paulo, julho 2011.

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