Entre equívocos, mentiras e fraudes no currículo de políticos: racismo e ministros

Decotelli, ex-ministro da educação, já está saindo sem nem ao menos ter esquentado a cadeira no cargo.

As várias denúncias de inconsistência em seu Lattes infladas pela mídia e reverberada pela sociedade civil em redes sociais foram a tônica dessas duas semanas desde o anúncio do presidente da república do gabaritado ocupante do cargo.

Um governo que rechaça o conhecimento acadêmico, que combate fortemente o “marxismo cultural” disseminado pelas universidades enfatizar justamente a formação intelectual de membros de sua equipe soa bastante incoerente. No entanto, o diploma ainda é motivo de credibilidade e atestado de capacidade super valorizado para admissão profissional das pessoas. Dizer que tem mestrado ou doutorado em universidade top brasileira ou qualquer outra no exterior autoriza carteirada intelectual no discurso.

A ex-presidente Dilma Rousseff,  quando foi ministra da economia, dizia ter feito mestrado e doutorado em economia pela Unicamp quando apenas cursou os créditos do programa sem defender tese, mesma situação de Decotelli e que foi o caso de Celso Amorim. O ex-ministro de relações exteriores governo Lula (PT) dizia ter doutorado em ciência política pela London School of Economics (LSE), mas a instituição informou à revista Exame que o doutorado nunca foi concluído.

Outro a mentir em seu Lattes foi  ex-juiz federal e atual governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel que na plataforma acadêmica apontava um período de intercâmbio na universidade de Harvard, nos Estados Unidos, uma das mais reconhecidas do mundo. Na realidade, está fazendo doutorado no departamento de Ciências Políticas pela  Universidade Federal Fluminense e tinha intenção de fazer um doutorado sanduíche pela renomada universidade norte americana.

A ministra da mulher, da família e dos direitos humanos, Damares Alves, o ex-ministro da educação, o colombiano Vélez, o ministro do meio ambiente Ricardo Salles e o ex-ministro da educação Abraham Weintraub  inflaram e mentiram em seus currículos para terem seus discursos autorizados.

Se fosse pelo governo que bombardeia a educação brasileira e deslegitima professores qualquer coisa em que essas pessoas tivessem sido formadas pouco importaria. Ideologia, sim, importa e muito. A começar pelo guru Olavo de Carvalho que de formação é astrólogo, mas que se autointitula filósofo, o mestre dos magos dos bolsonaristas, que segundo ele mesmo só tem até a quarta série do fundamental.

Carlos Decotelli, como homem preto que é, sabe que dentro da supraestrutura branca não há espaço para o erros. Ele sabe que para galgar postos nesta estrutura, burlando as questões raciais, só fazendo o jogo de quem está no poder se igualando a eles. Inclusive o fato de inflar o currículo segue essa lógica de poder. Preto tem que fazer sempre mais e melhor para ser reconhecido dentro desta estrutura. Se o erro é um equívoco que pode ser contornado com desculpas públicas por parte de pessoas brancas, o erro é fraude, é crime passivo de massacre midiático onde a postura ética de renúncia só é exigida do homem preto, que deve sempre estar imbuído de comportamentos nobres, de dignidade, educação e equilíbrio que nem eles ao menos têm e que mesmo não tendo são comportamentos perdoáveis e aceitos socialmente de pessoas brancas.

É o preto dócil, gentil, culto, de bons modos, um “Pai Tomás”  que se sente privilegiado por estar ocupando a casa grande ao invés da senzala.

“É necessário saber que, historicamente, havia duas espécies de escravos: o negro da casa e o negro do campo. O negro da casa vivia junto do senhor, na senzala ou no sótão da casa grande. Vestia-se, comia bem e amava o senhor. Amava mais o senhor do que o senhor amava a ele. Se o senhor dizia: — Temos uma bela casa. Ele respondia: — Pois temos. Se a casa pegasse fogo, o negro da casa corria para apagar o fogo. Se o senhor adoecesse dizia: — estamos doentes. Se um escravo do campo lhe dissesse ‘vamos fugir desse senhor’, ele respondia: — Existe uma coisa melhor do que o que temos aqui? Não saio daqui. O chamávamos de negro da casa. É o que lhe chamamos agora, porque ainda há muitos negros de casa.”

Malcolm X

Essa citação do discurso Malcolm X, “Message to Grassroots”, um dos grandes ativistas do movimento negro pelos direitos civis dos E.U.A, mostra bem quem é essa figura  que por benefícios salariais, meritocráticos e por gratidão está ao lado do senhor,  mas que neste sentido faz um desserviço às lutas da comunidade negra  como aponta, Marcos Rezende. No momento em que esse negro atrapalha os projetos estabelecidos pelo senhor, ou  se rebela questionando privilégios ou se posiciona exigindo tratamento igualitário entre pessoas, vai perceber que mesmo sendo “amigo” do sinhozinho sua cor de pele não o torna  a um igual.

Nosso ex-ministro preto sentiu isso, vivenciou isso ao longo da carreira e fez uso dos subterfúgios que pode para estar lado a lado com o opressor, escolhendo oprimir também, porque sua educação não lhe permitiu romper com esse ciclo. O que me parece diferente do que acontece com figuras como Sérgio Camargo, presidente da fundação Palmares, e como Fernando Holiday, vereador paulistano, que aniquila as questões identitárias, anulando-as para atacar o movimento negro sob a égide de um discurso não vitimista.

Em entrevista para a UOL, Decotelli avalia que o racismo tenha sido um fator de influência em seu processo de desgaste no governo de Jair Bolsonaro e afirmou que “há muitos brancos com imperfeições em currículo trabalhando sem incomodar.”

Entender como o racismo estrutural é parte naturalizada das nossas relações passa por compreender justamente a dificuldade dele ser combatido por passar despercebido dentro dessa conjuntura.

Em um momento marcado por um forte ataque ao governo do presidente Bolsonaro, que apresenta enormes falhas e escândalos que põem em risco a reputação do Brasil até mesmo no exterior, o fato de outras pessoas não sofrerem sanções por seus currículos “imperfeitos” pode parecer azar de Decotelli, que chega neste período político tão conturbado e poderia até ter realizado um bom trabalho, mas por ação de forças contrárias ao governo e com a ajuda  midiática fizeram que sua saída fosse fomentada enquanto que o tom da pele nada tem a ver com isso.

Poderia não ter nada a ver mesmo caso a mídia, a sociedade e grupos contrários ao governo se voltassem com a mesma intensidade para forçar a saída dos que tem seus “currículos imperfeitos”, mas que por lá permanecem.

A questão aqui não é minimizar a atitude de Carlos Decotelli, algo que precisa ser apreciado com um olhar menos superficial, pois estima-se que 75% dos brasileiros metem em seus currículos, principalmente pessoas mais velhas e ocupando funções de maior prestígio social, porém vou dedicar outro texto para falar sobre esse fato. O que precisa ser corrigido, pois esse é o momento e é algo que faço aqui, é exigir a saída dos ministros que ficaram. É romper com as correntes que ainda nos prendem simbolicamente à escravização.

O jornalista Leonardo Sakamoto em sua coluna no UOL denuncia esse racismo estrutural e faz uma mea culpa, “antes que digam que a gente vê coisas onde elas não existem, vale ressaltar que essa é a consequência da coisa toda ser estrutural. E cabe a nós autocrítica.” Muito bem, pois a matéria que ele escreveu e traz como título “Ministro da Educação ensina a primeira lição: maquiar currículo funciona” nos leva a crer que a lição só funciona para  Decotelli ou para ministros da educação, quando na verdade funciona até como um dos requisitos para admissão neste governo.

Neste jogo todo em que uma política racista se mistura com saúde pública e interesses privatistas para mim o golpe mais sórdido desta partida veio pela FGV  ao divulgar que o ex-ministro nunca foi professor “de qualquer das escolas da Fundação“. Em nota, a instituição declarou que Decotelli atuou apenas “nos cursos de educação continuada, como professor colaborador, nos programas de formação de executivos”.  Para tirar o corpo fora da reta e manter sua reputação e currículo desvinculado das “imperfeições” apontadas rebaixa a função realizada pelo funcionário durante 6 anos seguidos nos cursos de educação continuada da instituição. Porque se professor colaborador não exerce a função de professor ele faz o quê? Por essas questões que envolvem a ética em educação que a credibilidade da FGV e do próprio sistema educacional devem ser observadas. Assunto para nossas próximas reflexões.

Ministros do governo Bolsonaro que mentiram no currículo
Ministros: é comum que em começos de governo, os novos membros sejam confrontados sobre a veracidade das informações (Agência Brasil/AFP/Agência Brasil/Reuters/Exame)

 

 

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