Falar sobre as questões que envolvem mulheres e pretos periféricos é política partidária, segundo secretário municipal de educação de São Paulo

O racismo estrutural tem sido denunciado em nossa literatura como uma das formas mais cruéis em que a nossa sociedade brasileira se funda e se arregimenta para perpetuar as diversas formas que imobilizam a população periférica e preta a galgarem espaços dentro das redes de prestígio social.

Durante muito tempo, e ainda hoje diga-se de passagem, as questões que envolvem o racismo estão ligadas à esfera do comportamento individual e de superação pessoal. No entanto, essa compreensão tem sido deliberadamente desconstruída quando passamos a entender que o racismo faz parte da história moderna guardando relação com a formação do Estado. Segundo o jurista Silvio de Almeida, o conceito de raça foi desenvolvido pelo modelo do Estado burguês para eleger o sujeito universal e organizar as relações políticas, econômicas e jurídicas a partir da categorização em classes dos indivíduos com o fim de preservar o grupo hegemônico. Como nossa sociedade é racista em sua formação, o jurista, explicita que essas relações também vão adentrar as instituições e serem perpetuadas por elas.

Isso se dá em todas as esfera de nossa vida cotidiana, em nossos lares, na igreja, na escola, no trabalho, nas repartições públicas e privadas a partir da naturalização de comportamentos preconceituosos em relação à subalternidade da população preta e dos espaços que seus corpos ocupam.

Estamos envoltos num momento muito delicado para as instituições governamentais, pois para gerenciar as cidades, estados e o próprio país precisam equacionar interesses de grupos econômicos, “primeiramente”, ao passo que a falta de uma vacina e o aumento de mortes por Covid 19 ainda é uma realidade posta para garantir o direito à vida dos cidadão, direito universal inconteste a ser garantido por qualquer nação dentro da liberdade que nos cabe.

A volta às aulas presenciais nas escolas do estado de São Paulo e da capital paulistana já foi marcada pela administração pública para o dia 08.09.2020 com a perspectiva de que os números de contágio e óbitos já estejam em declínio até lá.

A secretaria de saúde, então, junto à secretaria de educação elaborou uma minuta com protocolos sanitários que devem ser observados para que o ambiente escolar esteja adequado e seguro para o receber estudantes e funcionários. Este documento foi enviado para as escolas para que as unidades se organizem no sentindo de viabilizarem espaços e pessoas para darem conta de cumprirem com o protocolo.

O secretário municipal de educação de São Paulo,  Bruno Caetano, chamou para o diálogo todas as DRE (diretorias regionais de educação) da capital para ouvir dos profissionais envolvidos diretamente com a execução da minuta quais as condições necessárias para colocar em prática os protocolos dentro do chão das escolas.

Ontem, 22.07.2020, a última DRE foi ouvida. Durante 4 horas profissionais da DRE Pirituba/Jaçanã elencaram situações que precisam de urgente atendimento para trazer segurança aos profissionais que trabalham nas escolas bem como das crianças e adolescentes que frequentam o espaço escolar.

Importante essa consulta, esse diálogo com quem estará na linha de frente, pois nós,  mais do que administração pública, sabemos das condições em que nossas unidades se encontram para podermos por em prática os termos dos protocolos sanitários.

A cidade de São Paulo é a maior economia da América Latina, mas está envolta em grandes desigualdades sociais em suas regiões, inclusive atingindo mesmo, bairros vizinhos. Isso perpassa as condições de cada uma das escolas que também são atingidas pelas desigualdades sociais, econômicas e estruturais da própria cidade. No entanto, as políticas públicas são pensadas de maneira genérica desconsiderando as peculiaridades físicas e humanas de cada unidade escolar. Desconsiderando características populacionais étnicas e de gênero colocando em pé de igualdade todas as suas ações. Contudo, os documentos que regem a educação municipal (currículo da cidade) nos falam para, como profissionais da educação, respeitarmos as diferenças étnico raciais e de gênero, olharmos as possibilidades de aprendizagem próprios do território em que a comunidade escolar está inserida, nos dando autonomia para a execução de e implantação das políticas públicas como está na introdução de todos os materiais curriculares do Ensino Fundamental do qual cito um trecho:

Sua implementação acontece por meio da construção de currículos locais, de responsabilidade das redes de ensino e escolas, que têm autonomia para organizar seus percursos formativos a partir da sua própria realidade, incorporando as diversidades regionais e subsidiando a forma como as aprendizagens serão desenvolvidas em cada contexto escolar. (Currículo da Cidade, p. 12, 2019)

Ao tratar dessas questões que são tão caras e específicas ao território em que sua unidade escolar está inserida, a diretora Valéria Marques Mendes, mulher preta, expôs com dados e autoridade a condição de mulheres trabalhadoras majoritárias da educação e da população periférica preta e indígena que faz parte do contexto escolar em que a escola está inserida. Essa sua fala foi deslegitimada pelo secretário que a classificou como discurso político partidário e ainda se referiu às palavras da profissioal como desrespeitosas e grosseiras. Num ato explícito de incoerência com os documentos oficiais que regem as práticas pedagógicas as quais a secretaria sob seu comando está vinculada,  evocando a autoridade do cargo a partir de uma postura autoritária e sob à bandeira de uma pretensa “neutralidade” gerencial o secretário numa atitude machista e  notavelmente embasada no racismo estrutural silencia os apontamentos feitos pela diretora. Tudo isso podemos observar e aprender identificar às 3h30 do vídeo Fala Rede – DRE Pirituba / Jaraguá

racismo estrutural
Reprodução do youtube/Fala Rede DRE Pirituba/Jaçanã

Vamos ajudar ao secretário, Bruno Caetano, a entender o que é racismo estrutural  e como ele se manifesta escrevendo um monte de comentários antirracistas no vídeo? Afinal de contas sou cronista aqui, mas antes de tudo sou professora e só vejo uma forma de expurgarmos esse ranço com atitudes antirracistas,  por meio da denúncia do racismo cotidiano e do empoderamento da sociedade preta para revertermos os danos causados por essa estrutura em todos os setores de nossa sociedade.

#RacistasNãoPassarão A fala da diretora Valéria foi extremamente pertinente dentro do debate e ela foi deliberadamente silenciada. Todos os recortes feitos mostram uma visão acima de tudo humanizada da comunidade que ela atende e das demandas que perpassam as questões de gênero e etnia. Ao senhor secretário coube rebater de forma acrítica e sim partidária, pois seu perfil de gestão não leva em conta as peculiaridades das populações que a escola pública da cidade de São Paulo cobre. Deslegitimar e desqualificar toda a fala da diretora para defender a necropolítica a que ele serve é desumanizante e está concorrendo para aprofundar as relações históricas de que o racismo estrutural se serve com sua violência simbólica para barrar o acesso das populações periféricas e das mulheres pretas a maiores degraus dos campos de mobilidade social. Senhor Bruno Caetano, reveja sua escuta, pois não está fazendo estas audiências para ser psicólogo, mas para buscar meios efetivos e exequíveis de encaminhar políticas públicas que atendam à vida, em primeiro lugar de funcionários e estudantes, e que possa entregar qualidade de educação para a população paulistana. (Globeleza00, Fala Rede – DRE Pirituba / Jaraguá, 2020)

Já deixei minha contribuição. Que tal deixar a sua também? Afinal se queremos uma sociedade melhor cabe a cada um de nós agirmos para que ela seja melhor.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s